quarta-feira, 6 de agosto de 2025

 sempre pensei no gesto do amor como quem segura um punhado de areia na praia. segurar com força não garante que alguns grãos escorram pelos dedos, se correr demais pode, igualmente, causar o desperdício. de qualquer modo, é quase impossível manter o número exato de grãos depois da primeira mãozada. mesmo com o ímpeto de encher a mão de amor, há um limite estabelecido pela realidade. mesmo que se queira, não se pode amar em demasia. pode-se até pegar com as duas mãos em concha, mas isso não as protege do vento. a fina areia se esvai, mesmo com toda a atenção, mesmo com todo o esforço, pouco a pouco, toda a areia se esvai. Há quem faça algumas sugestões: armazenar num pote hermético, tão fechado como se fosse um cofre, para protegê-la de qualquer perigo; mas como disse cícero "em cofre não se guarda coisa alguma/em cofre perde-se a coisa de vista"; não se guarda, perde. E é terrível carregar a culpa da perda. Tenho pensado muito em culpa; em especial, na ausência de culpa de prometeu; aquele que roubou o fogo do cofre dos deuses para entregar à humanidade; a tragédia de prometeu não começa com um crime, mas com a decisão de Zeus de que a humanidade não era digna; ao desobedecer essa autoridade, ele entrega o fogo aos homens e permitiu a sua emancipação; por isso - dizem - que prometeu foi o deus que mais acreditou na humanidade; ele não comete apenas um crime; ele transgride a própria definição de destino imposta pelos deuses; sua punição: ser acorrentado e ter o fígado devorado eternamente, "excluído para sempre de um perdão que ele se recusa a solicitar.” Aqui é que entra a culpa, ou melhor, a sua ausência; pois a ironia nisso tudo é que prometeu, "o que antevê", era capaz de ver o futuro; e ao entregar o fogo aos homens ele sabia das consequências (‘nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim’); esse é "o estoicismo de prometeu"; ele escolheu a revolta; a rebelião e decidiu encarar os seus resultados sem culpa, sem remorsos, por ódio aos deuses e amor aos mortais, por isso, ele não é vítima, tampouco culpado da sua própria tragédia; ele não pergunta porquê o abandonaram; ninguém lavou as suas mãos para exigir inocência.

é preciso imaginar prometeu feliz

                                    - é preciso carregar consigo um certo espectro de prometeu





quarta-feira, 22 de janeiro de 2025



Os cientistas descobriram que a fecundação não é fruto de uma corrida de espermatozoides, no qual o mais rápido é aquele que fecunda. Isso muda tudo. Não surgimos de uma competição, não temos a disputa em nosso DNA. Nós surgimos de uma dança... a passos lentos, onde não é o espermatozoide que vai até o óvulo, mas este que o seduz. 

Os pesquisadores ficaram estarrecidos ao observarem que o óvulo não tem uma postura passiva (como se esperava) e pode, como um aceno, dizer "não". Ao mesmo tempo, o óvulo também seduz aquele que quer fecundar, e como numa coreografia, o gameta feminino libera uma substância no qual atrai e controla aquele que é escolhido. Os químicos, por falta de poesia, chamam essa substância de quimioatraentes. Os poetas chamariam apenas de amor. O espertozoide não venceu uma corrida. Ele foi seduzido. 

E isso deixa tudo mais bonito. 

Assim, devemos mudar a alegoria que contamos para as crianças. Porque não é o pai que coloca a sementinha numa espécie de vazo pronto para florescer qualquer semente. Mas, justamente, o contrário: é a mãe, enquanto semeadora, que vai escolher a semente que irá florescer. Olha, eu já consigo imaginar os gametas dançando, se divertindo (como deve ser bonito o milagre da vida) ao invés daquela corrida cafona. O óvulo tem, aproximadamente, o tamanho de um grão de areia. Ou de uma estrela. Dependendo da perspectiva, já que não podemos alcançá-las. E se aos olhos nu o grão e a estrela são quase do mesmo tamanho, é bem mais charmoso levar um corpo cósmico no ventre. Ironicamente, isso torna o início o mesmo estágio do fim, do nascimento e morte. Pois é assim como explicamos a morte para as crianças: "Ele virou uma estrelinha no céu..." 

Parece um jeito ingênuo de ensinar, mas se o big bang deu origem a isso, temos em cada átomo nosso uma partícula dessa explosão inicial. Querendo mentir, para minimizar a dor, acabamos por revelar a verdade. Como já disse Gerome Morrow: "Dizem que cada átomo do nosso corpo um dia foi estrela. Talvez não estejamos morrendo. Talvez só estejamos voltando para casa." E assim como a estrela que brilha já pode ter morrido (e nós enxergamos a luz de algo que sequer existe) nós podemos também ser essa luz que expande, ilumia para além da vida. Tudo depende de como vamos gastar essa vida e realizar a nossa explosão particular. Somos uma poeira cósmica - e desbancando qualquer arrogância de quem se deseja exato, essa é a lição mais poética que podemos aprender com a física. 

Agora, pedindo licença aos cientistas, poderíamos imaginar  - enquanto uma poesia - o zigoto, essa primeira célula do novo ser, que precisa compartilhar, se dividir, multiplicar, enfim, explodir, para gerar um embrião. Esse é o nosso big ban, a explosão da nossa estrela que gera a vida. Assim, por que não imaginar que antes da explosão - esse grande enigma que nos aflige - existia uma dança? 

E Deus seria um par se seduzindo, se amando, antes do estampido, do estrondo, da rebentação. Dançando, numa coreografia do caos, em meio ao estouro, e desse deslumbramento, vem a vida.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

vida

Nascemos:
a primeira mentira que nos contam 
é que cresceremos 
amadurecemos
mas o que acontece 
é que apodrecemos  
por isso todo hospital deveria ter uma
maternidade 
para lembrar nesse vai e vem do mundo 
- a chegada também significa despedida 

Sofremos:
e não há nenhuma compensação 
E quem a plenos pulmões grita:
"Tenho direitos!!!"
é porque já não tem mais nada 
a não ser o último fio de dignidade 
que é de ainda poder berrar 
quem se cala, não se acovarda
mas poupa a sua fraqueza 
por estar resignado 

Morremos:
essa recompensa está para todos
seja qual for o pavio que conduza a vida - 
conformado ou indignado 
 - mesmo aquele que não tenha conspirado
não estará imune a pergunta final:
"E aí, o que você fez da sua vida?"

sábado, 6 de julho de 2024

suicídio

um único ato, pois não é possível realizar outro,
que reune no mesmo gesto
coragem e covardia

coragem, porque exige muita ousadia em colocar um fim nisso tudo
acabar com as dores
dar fim ao sofrimento

covardia, porque exige muita ousadia em desistir disso tudo
acabar com as dores
dar fim ao sofrimento

os covardes sequer imaginam que são corajosos; 
os corajosos sequer pensam que são covardes;

isso tudo por causa de batimentos involuntários.

se o coração soubesse o que passa pela mente; 
pararia 
por pena
por obediência 
por compaixão. 

segunda-feira, 26 de junho de 2023

carnaval







(...) o que mais me comove em meio a uma multidão é ser encontrado pelo seu olhar. Entrar na sua mira. E ser atraído pela gravidade irresistível dos seus olhos até ser enlaçado nos seus braços no meio da turba. Um gesto de carinho e calmaria diante de tanta alegria e confusão para depois ser solto de volta pro mar. O que mais admiro em você é a sua liberdade. As vezes é tanto que espanta. E esse espanto é que deixa a gente vivo. Aquece, confunde, remexe. Viver é isso. Riobaldo dizia que viver é muito perigoso. E não se expor a esse risco significa não viver. Ele dizia também que “quem ama é sempre muito escravo, mas não obedece nunca de verdade”. Na primeira vez que li, discordei. Mas agora entendo. Nosso amor é senhor e servo. Uma servidão que obedece o desejo e não o outro. O outro jamais pode ser, para nós, um freio, um obstáculo. A nossa parceria é um senhor sem ser dono, como um apoio fraterno, compreensivo que sempre age com compaixão. Vamos ser livres de tal modo como aquele muro alerta: a liberdade é o espaço que a felicidade precisa. Vamos arrancar as correntes e suportar essa dor no peito. Encarar de frente um amor autêntico, verdadeiro e pegar a felicidade pelo braço e sair correndo como dois apaixonados. Quem de longe, ao observar desavisadamente, não entenderá porque tamanha pressa. Mas é porque eles não entendem que a nossa pressa é a calmaria de estar sempre indo ao encontro do outro. Porque seu peito é meu cais, meu aeroporto, minha rodoviária: é o espaço de toda a saudade. 



terça-feira, 31 de janeiro de 2023

penumbra

aqui se esconde aquilo que não pode ser capturado 
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nada é inapropriado se falado ao pé do ouvido 

como um sussurro que precede o gemido 

uma prece, um pedido, um suplício

no leito do quarto

ao lado da mulher desejada 

onde dizer o proibido é permitido 

e nenhuma censura convém ao arbítrio 



não há timidez que se imponha à nudez

da liberdade de se estar nu

com a pele a atravessar o corpo 

numa sutileza e certeza daqueles que conspiram
 
junto a um cúmplice que sabe-se infiel 

onde a traição é a própria redenção

e a salvação não exige o perdão
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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

besouro

 





Entre os pés que poderiam lhe causar a morte, 

                                                    vejo um besouro de barriga para cima. 

Patas balançando em sinal de desespero, 

                                                    quase não mexe o seu exoesqueleto

segues implorando com pouca sorte

de pernas para o ar

com desalento e angústia: agoniza

a espreita de qualquer ameaça que pode o esmagar.

incapaz de alçar voo

torna-se inútil o nosso besouro

                               - que quando vence a gravidade

                                 plaina zonzo, barulhento - mais pesado que o vento pode suportar

aos olhos em desalento, pensa-se, na altura, um alvo fácil de acertar

mas indefeso no chão

                                 -  sem poder voar - 

ninguém pisa e o mata

                                por compaixão ou complacência

por não ser uma barata.