sábado, 12 de julho de 2014

dedicado a todos os amantes mortos em combate

tem gente que escolheu
por não morrer
apenas amar

só a ternura 
do amor
é capaz de fazer
nos entregar
desse jeito

para desconhecidos

que sofrem e passam fome

(que outros reagem
com indiferença
ou resignação.)

eles apenas amaram
e com suas armas
carregadas de munição
também carregavam bombas de esperança

que nem o pau de arara
ou o choque elétrico
conseguiram desarmar

tem gente que escolheu por não morrer
e permanecem presentes

pois sempre tiveram a certeza
de que a vida não acaba em si mesma

E da história receberam uma única sentença: estarem condenados perseverar, para sempre. 

previsões sobre a morte

senta-se ao meu lado uma velha senhora. Inquieta, pede licença e interrompe a minha leitura. Se era importante ou não o que eu estava lendo, apesar de perguntar por mero formalismo, não lhe importava. Estava preocupada. Ligava repetida vezes para sua amiga, mas sempre caía no abismo da caixa postal. Sem resposta, pergunta-me: O que pode ser isso? Roubada, linha cortada, viajando. Dei as minhas possibilidades. Ela não tinha pensado em nenhuma dessa. Apenas uma: a morte. A doce evidencia da morte se apresentava para ela com naturalidade, comum a sua senilidade. Calei-me por um instante e respondi que o celular não pararia de funcionar por conta do falecimento do seu dono. Mesmo assim, não lhe convenci. Deve ter morrido, refletiu novamente. Apertou o botão e desceu no ponto seguinte. Não se despediu. Foi com a tranquilidade de quem sabe que não se nasce para morrer. De quem sabe que a morte não lhe dá tempo para se despedir

quinta-feira, 22 de maio de 2014

doméstica





abdicas sua vida
à família alheia

amor subordinado
e remunerado

para cuidar de filhos
que não são seus
para cuidar da casa
que não é sua
para ter cuidado
com aquilo que não lhe pertence

renuncias ao seu lar
em troca de um quartinho
apertado
(que talvez
tenha janela)

come o resto
que sobrou na panela

Quem é ela?

Do que vive essa criatura?

se ao menos pudesse ler Faustino
para amenizar essa vida dura:

'tanta violência,
mas também tanta ternura'

domingo, 4 de maio de 2014

samba

'os melhores sambas
são sempre tristes'
você me dizia

e se pudéssemos
fazer um samba
como seria?

se a infelicidade não combina
com nossa companhia




quinta-feira, 24 de abril de 2014



depois daquele beijo que nos separou

eu de um lado:
Consolação

você de outro:
Paulista

restabelecemos a forma
usual dos paulistanos:
a solidão

e com ela tentamos fazer um filme
com fragmentos de tantos outros,
mas faltam os vinte quatro quadros
no mesmo segundo
para nos por em movimento
e alguém lá no fundo gritar
"AÇÃO"

para podermos atuar
nas ruas dessa cidade
- que nos lembra tantas outras -
e fugir como clandestinos de um amor subversivo
encontrando nos prédios
do século passado
um refúgio num tempo
que não é nosso

(e nesse momento sua preguiça
nem se lembra
que eles não tem elevadores)


terça-feira, 22 de abril de 2014

sabe,
inevitavelmente,
um dia você me odiará

e eu só quero que você se lembre:
que eu confio
e acredito
em você.

mesmo que talvez, eu
desconfie
(como naquele dia que você me disse que seria possível, mas eu não confiei.)
ou então
desacredite
(como naquele momento em você me disse para acreditar, mas eu não acreditei)

sabe,
a culpa será minha,
mas
mesmo assim,
não ligaria do seu ódio por mim.

porque qualquer sentimento
é melhor que sua indiferença

e ser percebido por você
(seja bom ou ruim)
é importante pra mim

sabe,
dizem que dar presentes é uma forma de criar vínculos.

.
....................................................................................e esse é o meu presente
.
.
pra você.



sexta-feira, 7 de março de 2014

anotações

a distância nos assegura
que não iremos nos machucar
nem despencar num abismo qualquer

porque;
hoje;
se quer;
amanha;
talvez não;

e não é necessária nenhuma obrigação
para ter
sua companhia

porque eu sei:
você prefere ficar sozinha

nisso não vejo nenhum problema

ao menos
me rende
mais um poema