sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

cinelândia

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os trabalhadores da avenida central jamais imaginariam que, um século depois, você cruzaria aquela praça cercada por prédios ecléticos: de um lado a dança, com o theatro; do outro a película, com o odeon; arrematado pelos quadros e livros, do museu e biblioteca. no seu ouvido: janis joplin - sitiada pela arte (você, a única artista) dançando para uma plateia desavisada do espetáculo. Chamam essa praça de outro nome, porque a elegeram pelo o que ela é. Antes de seus passos já passaram tantos outros, por tantos motivos, mas quase todos em busca do desconhecido. Ali também havia um palácio, construído no começo da república, uma ironia que sacramentou seu fim. Era bonito. Inegavelmente bonito. Talvez fosse possível vê-lo da sua janela enquanto toma um chá. Todavia, demoliram-o. Só para mostrar que tudo é perecível. Demoliram-o. Quem sabe, por esses dias, uma vó apontaria para o seu neto uma praça vazia e diria: 'ali existia um palácio'. Hoje há uma praça vazia. Vazia por ser inútil, inútil por ser vazia. Pouco importa, pois você caminha na direção contrária, com seus fones de ouvido (Take another little piece of my heart now, baby!) Se ele estivesse lá, você com o volume alto, nem perceberia, (Break another little bit of my heart now, darling) pois só sentimos falta daquilo que carecemos. (You know you got it if it makes you feel good/ oh, yes indeed)... e afinal, quem precisa de um palácio?

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

ciência

parece que os cientistas descobriram o verdadeiro motivo do nosso primeiro choro. O ar, ao entrar em nossos pulmões pela primeira vez, causa-nos uma dor insuportável. Engraçado é perceber que quando nascemos, choramos enquanto todos fazem festa. Então, por que não acreditar que quando morrermos, poderemos sorrir enquanto todos os outros choram? Seria uma ironia da morte. Ou, talvez, esse seja o objetivo da vida: tá aí; esse é um mistério que os cientistas ainda não conseguiram desvendar, apesar de ser a nossa única certeza: o fim em si mesmo



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segunda-feira, 2 de julho de 2018

ter.nu.ra

aurélio define 'ter.nu.ra' como uma tristeza suave... ou seja, estamos tristes e nem sentimos; tampouco compreendemos; talvez não sabemos como viver com essa doçura melancólica tão leve.

tristeza suave: engraçado, um poeta russo certa vez disse que não havia motivo nem pra ficar feliz, nem pra ficar triste. a quilha cortando as ondas da história não exigem muita ternura, quem sabe há um pedido maior por fúria para ultrapassar um mar revolto. não sabemos.

tristeza suave: sofremos de ternura nos dias de domingo; quando precisamos partir e pouco a pouco a pele se despede e afasta - quando se separa ainda resta um calor da tua presença... sempre acreditei que esse gesto fosse o seu verdadeiro significado: ternura.

sábado, 23 de junho de 2018

poema brasileiro .18

no Rio de Janeiro a cada 21 dias 
uma criança morre antes de completar 14 anos de idade

no Rio de Janeiro
a cada 21 dias
uma criança morre antes de completar 14 anos de idade

no Rio
a cada
21 
dias
uma criança
morre
............................................................................(de tiro!)
antes de completar
14 anos idade

antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade
antes de completar 14 anos de idade



domingo, 19 de novembro de 2017


já perceberam que os jogadores de hóquei no gelo continuam a brigar pelo disco mesmo estando atrás do gol? a impossibilidade, imposta pela geometria, de marcar o ponto de maneira imediata não os desanima. E brigam (como brigam) pelo disco. Tem coisas que só o frio explica.

já repararam que mesmo sendo mais difícil, as pessoas - depois da parada repentina - continuam a descer a escada rolante ainda que esteja parada? O que os move? A esperança de voltar o movimento e evitar qualquer tipo de fadiga?

não há pergunta mais covarde do que indagar sobre a sua felicidade: você é feliz? você está feliz? ninguém é feliz quando reflete sobre a sua própria felicidade.

um dia eu vi a chuva chegar até mim. Como um oásis ao contrário, chovia em todo o canto, menos em mim. Deu ainda para - os mais próximos - observarem a chuva chegar e correrem para um abrigo. Eu simplesmente deixava os pingos caírem. Por certo, eles molhavam, mas era como eu não me incomodasse com isso.

qual deve ser a sensação do mosquito num curto espaço de tempo - enquanto ele suga o seu sangue - ao passo que a mão corre para espremê-lo. Certamente, não deve sentir dor. O mais estranho - sem dúvidas - é matar um bicho e ver que, no final das contas, o que sai daquele exoesqueleto é o seu próprio sangue.

domingo, 30 de julho de 2017

a arte observa a morte





nas galerias - a regra - é a vida observar a arte pregada na parede

mas existe sempre a exceção
que surge de forma inesperada 
e inverte a lógica: 
a arte observa a morte no chão 

Todos falam a regra. Ninguém diz a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostóievski. É composta: Vivaldi, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Godard. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Aleppo, Raqqa, Ancara. 

A regra quer a morte da exceção.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Anoitecera e ela se viu cansada. Só percebera isso por conta do café frio e daí a curiosidade de olhar pela cortina da janela e enxergar a escuridão. O seu ambiente de trabalho não proporcionava muitas distrações, tampouco contemplar o céu. A faxina no Edifício Le Corbusier era intensa pela quantidade de escritórios. Ela ficava responsável por três andares. Quando chegava no terceiro, já era tempo de retomar o primeiro. Assim até acabar o dia.  Na hora do almoço, esquentava sua marmita de plástico no microondas e comia sem muita empolgação. O restante do tempo preparava e servia o café aos demais funcionários do prédio. Sentia-se útil assim. Anoitecera e um dia de vida estava prestes a acabar. Saía do Le Corbusier uma única vez durante o serviço: o momento de colocar o lixo na rua. Aqueles que a observavam da calçada, correndo e rindo com sacos de lixo, não conseguiriam compreender aquele gesto. Durante o dia inteiro, interagindo com centenas de pessoas, permanecia em silêncio, dizendo apenas palavras protocolares. Contudo, no momento em que corria com os sacos de lixos, permitia-se gritar e rir. Era impossível conter a felicidade de quem tinha um dia a menos para viver. Amanhã o dia virá novamente - inexorável - mas ela sabe que a noite há de tingir o céu e os sacos de lixo estarão ali para lhe proporcionar um minuto de euforia ou talvez este seja o sabor da liberdade.