segunda-feira, 14 de março de 2011

Do outro lado





Apesar de sempre negarmos
do outro lado do mundo
A realidade
e a natureza
nos mostra
nos faz enxergar
que sempre fomos iguais.

domingo, 13 de março de 2011

Somente para os bem aventurados

aos bens aventurados, eu vos peço



Dai-nos Barrabás



deus planeja comigo meu próximo pecado. Os fieis do outro lado da igreja nos espiam com inveja. Um pergunta ao outro baixinho (como são as conversas nas missas) qual deveria ser o assunto, o que deveria ser tão importante, por que eu e não eles - várias questões, várias perguntas inquietavam aqueles fiéis do outro lado da nave rezando o terço. No meio das 'aves-marias' deus me explica seu plano, como deveria ser, como eu deveria proVisualizar ceder. Achei estranho ele não prestar atenção na prece das senhoras que rezavam o terço - algumas tudo bem, fofocavam - mas outras rezavam penosamente, ajoelhadas. Ele não ligava. Quando indagado por mim, somente me fitou apreensivo como se eu o atrapalhasse a sua explicação. Simplesmente ignorou e voltou a me dar as orientações. No fim saí da igreja rumo a minha casa. Um menino me pede alguns centavos, qualquer moeda servia: cinco, dez, vinte e cinco centavos estariam suficientes para ele. De primeira o rejeitei. Ele insistiu. Do outro lado da rua, outro jovem nos observava. Calmo e atento assistia os meus gestos e a atitude do outro menino.


Em verdade te digo que esta noite, antes que o galo cante me negarás três vezes
O Homem não percebeu a minha observação no primeiro momento. O menino sugava e concentrava toda a sua atenção. Só por um momento que ele passou os olhos em mim, mas com a aparência de sem importancia. Recusou uma, duas, três vezes o jovem que lhe amoestava. Suplicava qualquer moeda e o Homem de fato deixara as últimas na igreja e só tinha notas altas na carteira. Olhou o menino calmamente. Pensou - ele não merece essas notas. Ficou meio receoso e talvez por medo ou por impaciência sacou (mesmo arrependido) a nota e deu ao menino que saiu feliz, pulando como se tivesse conquistado o mais lindo prémio - e talvez realmente tivera. Continuou sua caminhada mas desta vez não foi de uma forma tranquila. O menino lhe tirou a calma e a preocupação ocupava a sua cabeça. Por que foi dar a maldita nota ao moleque - pensava.

Perdoai-vos, eles não sabem o que fazem

O leitor deve estar se perguntando onde eu quero chegar com esse texto, com essas palavras. Pertubam-me! Mas ninguém se atreve a questionar os evangelistas! Por que Mateus? João? Marcos? Por que não eu, pobre favelado? Porque sou incapaz de escrever palavras santas, escritas a suor e sangue para o meu povo. E este porém, ingrato como deveria ser, carrega debaixo do seu braço aquele que pensa ou acredita que irá lhe salvar. E o pão de cada dia não cai do céu. E o vosso reino só mostra dor e ilusão. E a vossa vontade mostra-se cada vez mais severa. E as nossas ofensas nunca parecem ser perdoadas de forma gratuita. E a tentação sempre vence, trazendo os vicios e as incertezas. E o mal toma conta das nossas vidas. Por fim, longe do amém, nesse inferno só há dor e desilusão.

Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus!

Os jovens rezam. Rezam. Suplicam. Ajoelhados fazem preces pelos irmãos, primos, companheiros que estão presos, perdidos no tráfico, sumidos, com fome e por últimos aos que já se foram. Eles estão ali. De joelhos. Rezando. Agradecem por terem sobrevivido. Agradecem pelo emprego de servente de obra, pintor (por conta própria), catador de lixo (papelão e latinha), camelô (de cd falsificado), ambulante do ônibus (de bala e chiclete, para distrair a viagem) e malabaristade sinal (jogando pedras e limões). Enaltacem! Agradecem! Pedem outra vida (que vida?). A igreja está cheia. Vai começar o culto ou a missa (tanto faz). Agora é hora de coletivizar os seus problemas. Só o padre ou o pastor que fala. Você só escuta. O choro é livre. Você só escuta. Esse lugar que enaltece a riqueza não é para os que vivem felizes. É para os que sofrem e querem rezar, por não ter outra saída. E você só escuta. Por só ter essa saída. E você só escuta.E num lapso de distração - pensando nas contas a pagar - já se perdeu no sermão. Mais uma coisa para depois, no meio das orações, ter que pedir perdão. Pois por enquanto, você só escuta.

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

Mas no dia de segunda não há perdão. Deus se mostra distante, quase esquecido. O sol quente exalando, parecendo que está sugando o suor, se mostra presente mais uma vez. Parecendo desafiar - será que aguenta mais um dia nesse trabalho, seu merda? - e não dá tregua. Enquanto isso, executivos de terno e gravata passam. De 18°C à 40°C em segundos. Mas logo eles voltam a sua realidade em clima de montanha. Ele observa, tenta vender uma bala para um homem alto e com cara de ocupado, porém o celular impede. Do outro lado, seu irmão distribui papéis de "Compro Ouro" (enquanto ele só quer comprar um pão) e as gravatas o ignoram. O calor se mostra insuporável. O trabalho nem tanto. Logo o irmão se despede. Vai partir para os ônibus tentar buscar novos clientes. Enquanto o distribuidor de papel continua. Ninguém ali sonha com uma Faculdade, com bons estudos. Talvez pode até ser profissão de qualidade. Mas quem nasce a meio torturas, homicídios e terror não quer saber de medicina (tem medo de sangue) nem de direito (tem nojo de policia e juiz) nem de engenharia (após ter perdido sua casa). Gostaria de ser qualquer coisa, mas a sua filha e sua mulher não podem esperar pelo sonho do marido menino. E assim lança-se a rua a fim de ganhar a vida. Não o mundo - o mundo é demais. A fome bate à sua porta mais uma vez e ele precisa atender. Não tem como fingir que não tem ninguém.

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

E voltando para a casa. Sentando na janela, o melhor lugar do ônibus - ali se sente igual a todos - com o vento na cara. Fecha os olhos. E sonha com o céu. Tem medo de abrir os olhos e ver a realidade. E as lágrimas não lavam a vida sofrida. E a realidade vem a tona.

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

Onde está?
Onde está?
Onde está?

Pergunta a voz
que não lhe deixa
jamais se calar

Onde está?
Onde está?
Onde está?

Não está em casa
na sala de estar
No seu trabalho
não se encontra lá

Procura por cantos
becos e avenidas
não encontra nada
a não ser a bebida

E a realidade
vem a tona
como um soco na cara

Onde está?
Pergunta!
Onde está?
Responda!
Onde está?

E a realidade
o tortura
para que
continue a procura.

Não está na igreja
nos bordeis do centro
nem nos lixões da periferia
com os mendigos ao relento

E a realidade
com choques o tortura
Onde está?
Continua a pergunta

E a realidade
o convence
que não há ninguém

E a relidade
se impõe



Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!





No dia 29 de agosto de 1993, ocorria a maior chacina de trabalhadores que se tinha notícia. Vinte um trabalhadores foram brutalmente assassinados, entre eles estavam: 5 Metalúrgicos, 3 Gráficos, 2 Costureiras, 2 Comerciários, 1 Ferroviário, 1 Motorista, 1 Servidor Público da Saúde, 1Frentista, 1 Vigilante, 1 Pedreiro, 1 Dona de Casa, 2 Estudantes. Todos estes cidadãos tinham endereço fixo e profissão,. Não tinham nenhum envolvimento com atividades ilícitas, inclusive um deles foi morto com uma marmita nas mãos.



No dia 23 de julho de 1993 ocorria um crime que deixou revoltada a população do Rio de Janeiro, numa chacina que teve repercussão nacional e internacional. Oito meninos de rua foram assassinados nas imediações da Igreja da Candelária, um dos prédios mais conhecidos do Centro. Mais de 40 crianças dormiam na praça da igreja quando cinco homens desceram de dois carros e dispararam em sua direção. Até hoje não se sabe o que motivou a matança.

Terminou com 19 mortos e treze pessoas feridas a megaoperação realizada pela polícia nesta quarta-feira, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio . Treze corpos foram recolhidos pela própria polícia, e outros seis foram deixados à noite numa van em frente à 22ª DP (Penha). entre os feridos, sete pessoas foram vítimas de balas perdidas, além de um policial e cinco traficantes atingidos. A operação reuniu 1.350 policiais, entre civis, militares e soldados da Força Nacional; e foi a maior realizada no complexo desde de que a polícia ocupou as favelas, no dia 2 de maio, após criminosos que seriam do Alemão terem assassinado dois policiais, em Oswaldo Cruz, também na Zona Norte.

Crianças
  • Luana da Silva, 8 anos de idade
  • Larissa Andrade da Silva, 12 anos de idade
  • Carlos Henrique Matias Vitoriano, 13 anos de idade
  • Wesley Glauco da Silva, 17 anos de idade
  • Ivo Urbano da Silva, 17 anos de idade
  • Paulo Roberto de Oliveira, 11 anos
  • Anderson de Oliveira Pereira, 13 anos
  • Marcelo Cândido de Jesus, 14 anos
  • Valdevino Miguel de Almeida, 14 anos
  • "Gambazinho", 17 anos
  • Leandro Santos da Conceição, 17 anos
  • Paulo José da Silva, 18 anos
Adultos
  • Karen Cristina Baptista Borges, 20 anos de idade
  • Valnice Alves da Silva, 27 anos de idade
  • Mônica Pinto, 30 anos de idade
  • Edvan Mariano de Sousa, 32 anos de idade
  • Arlete dos Santos, 48 anos de idade
  • Marcos Antônio Alves da Silva, 19 anos
  • Poderia ter sido você.



terça-feira, 1 de março de 2011

A morte não é assim tão má para aqueles que a adoram




Quando eu morrer
(coitado de mim)
o mundo continuará o mesmo

Os homens continuarão seus trabalhos,
talvez um ou dois
faltarão por conta da minha ausência.
Os canários,
tanto os presos
quanto os livres,
continuarão a cantar.
As plantas continuarão com a fotossíntese
e eu não farei nenhuma falta ao motorista do ônibus de todas as manhãs

Porque o mundo
nosso mundo
não precisa de nós para sobreviver
Para girar em torno do sol
a Terra
não precisou de Copérnico
A maçã não precisou de Newton
para cair
O Sol não depende de ninguém para nascer

ele simplesmente nasce
implacável

E essas coisas já existiam
antes de mim
antes de você
e vai existir para além de mim
para além de nós.

Quando eu morrer
de pó como sou
à merda voltarei
e nem as vacas
-aquelas que pastam em latifundios-
vão agradecer a mim pelo adubo ao capim doce de todas as manhãs.
porque nem sequer
o mais insignificante mato
precisa de mim para sobreviver

.
.
.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

deus está de férias




imagina você
assistir uma injustiça por dia
e não poder fazer nada

uma injustiça
.......................por dia
e ficar inerte

a cada injustiça
........................uma covardia
e ficar inerte

parados,
estáticos
como se fosse longe

e fingimos
...................por corvadia
a injustiça do nosso lado
na nossa frente
nos nossos olhos
( que apesar
de fechados
podem ver)


e não fazemos nada
por impotencia
..................................por corvadia

quando os vidros se fecham
quando o fone está no ouvido
ignorando o ambulante do ônibus
quando não há centavos
quando não olhamos pro chão
quando atravessamos a rua
por medo, por receio
(talvez preconceito)
quando mais um jovem morre...

é porque deus está de férias
e o inferno está mais perto
e ele assiste a isso tudo covardemente

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Subversiva

Jornada




Jaime pega mais um dia o trem das 6:27 na estação do Engenho de Dentro. À caminho da Central, vai esmagado e apertado, pelos seus irmãos trabalhadores. Todos indo ali, para um mesmo rumo. Apesar de ser cedo, o calor já atormenta. O longo sol, tão distante mas também tão perto, acalora o trem que vai chegando na estação do Méier. Para mais gente entrar. Menos uma - pensa - fazendo a contagem, como faz todos os dias, até chegar ao seu destino. A cada estação, menos uma. A cada estação o pensamento longe do trem. Para esquecer a dor nas pernas - que o seguram dedicadamente todos os dias - e também o calor que distribui pingos de suor pelo seu corpo. Poderia pegar o Direto, mas ele nunca consegue chegar no horário para ir até Madureira. Seu sonho sempre lhe trai. Porém ele enganava a si mesmo que a viagem direto seria mais chatas. Não haveria estações para contar, seria mais demorada. Pobre menino. Ao chegar na Central, doce destino, ainda há a amarga caminhada sob sol para economizar os luxuosos R$2,40. Mais uma coisa para ocupar sua mente e protegê-la no sol. -O que fazer com essa valiosa economia: Comprarei uma coca? Mas ainda preciso de 10 centavos... Comprarei uma cerveja? Mas ainda precisaria de 10 centavos... Comprarei um jornal? Ou não... as noticias estão caras... Juntarei para o fim de semana? Mas ainda é segunda-feira... Comprarei... ? - Jaime chega seu destino. Suado, cansado, e ainda nem começou o seu trabalho, a sua rotina. Pensa sempre em se demitir. Xingar o chefe, seus superiores - vão para a porra - esbraveja sozinho ( e escondido) no banheiro. Imagina-se dono de uma quitanda perto da sua casa ou então vendendo churrasquinho ou ainda vivendo cantando de bar em bar - mas volta a sua realidade, a seu emprego real, aos seus desafios. Cada minuto parece uma eternidade. Tenta se distrair até chegar a hora do almoço mas essa ansiedade acorda a barriga que já o perturba - roncando sem parar -desde das onze horas. Ainda falta uma hora. Xinga a barriga pela maldita pressa. Cada ronco impedia a sua imaginação de levá-lo para outro lugar. Cada ronco denunciava sua atual situação. Cada ronco o torturava. Na hora do almoço, a marmita cheirosa é devorada em instantes. O resto do tempo ele reserva para cochilar um pouco e discutir sobre futebol. Não necessariamente nessa ordem. O resto do dia passa sem grandes preocupações e chega a sua mais esperada hora, o fim da jornada. Pega o caminho de volta, prefere voltar de ônibus e esquecer o trem. Toma uma pinga no botequim do ponto, que passa queimando,( lá se foi os R$2,40) e entra no ônibus que mais parece uma carroça de gente. Em pé, com calor, sem estações para contar. Condena sua preguiça mil vezes. Afoito para sentar, procura sempre alguém com a cara de que vai soltar no próximo ponto. Olha para uma velhinha que segura a bolsa, pensa: vai levantar!, espera ao lado dela e nada. Uma, duas, três, quatro pessoas sentam e a porra da velha não sai do lugar. Se condena mais mil vezes por ter escolhido o alvo errado. Como castigo a si mesmo reserva ali como o seu lugar até o destino: Ou a velha levanta ou vai em pé a viagem toda. E foi em pé a viagem toda. Se irrita porque o motorista deixa ele depois do ponto. Vai andando pra casa amaldiçoando o motorista ( e a velhinha é claro) até chegar ao seu portão. Recebe a mulher os filhos, janta, toma banho, assiste o Jornal, com alguns cochilos, e vê a novela com a mulher. A sua filha mais velha o aporrinha, mas ele ignora. Olha para o relógio e se põe a dormir. O imenso calor retarda um pouco o sono... o ventilador se mostra indefeso contra a grande temperatura. Suando, dorme aos poucos... pensando no amanhã que será igual ao ontem, que por sua vez foi igual a hoje - e sempre. TRIM, TRIM, TRIM - Toca o despertador: Perdeu o trem Japeri-Central Direto. Maldição - pensa.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Egito





"A propósito, alguns dos seus oficias de polícia mudarão seus uniformes e se juntarão ao povo"