quinta-feira, 16 de junho de 2011

Almoçando




Na pausa do almoço, a Poesia me contou um segredo: 'não gosto de sonetos'. Ora, eu ali em frente a ela não pude acreditar! Mas sonetos são tão bonitos!!!!- disse. Apesar das exclamações, ela não se deixou convencer. Não gostava de sonetos e era irredutível. Fazia Ela se parecer com sua vó, dizia amargamente. Essa obrigação de faze-los aumentava a sua raiva. Ninguém queria ver a sua mais nova invenção, talvez uns versos soltos... por que catorze? Talvez tantas estrofes quanto ela achasse necessária ou bonito. Os penteados dos Sonetos deixam a Poesia mais velha, mais madura. Só atraem leitores mais velhos, sérios, prontos para o casamento. Mas Ela não quer homens para casar. Ela quer conhecer meninos novos, aventureiros. Quer experimentar drogas novas, com garotos despreocupados. Quer se lida por leitores sem pudor, quer ser lida vorazmente. Quer a apreciação de meninas que decididas, independentes. Ela quer ser lida em qualquer lugar (porque há lugares que os Sonetos não entram) - eles são metidos - só gostam de lugares elegantes, com pompas, com recepção formal, talheres de prata, regalias para convidados. A Poesia gosta de ir a botecos, qualquer um, beber cerveja (nada de champagne) e comer a carne assada que está a três dias na estufa do bar. Isso tudo sem se preocupar. Ela quer estar no pagode, no samba, em todas as rodas. E não nas mesas de luxo, das conversas da madame. Uma mesa na calçada, com cadeiras de ferro - e basta.


A Poesia só quer ser simples, só quer estar com o povo. Este precisa da sua companhia. Aos burgueses que gostam de ostentar lindos Sonetos, meus pesames, ela não quer estar com vocês. Seus dinheiros, joias e carros não a encantam. Só ilude algumas de suas irmãs e primas que vão se vendendo por aí... Mas ela continua firme, almoçando comigo - um zéninguém - nesse restaurante sujo, a companhia de baratas e ratos, onde no fim todos tentam ser felizes.


Ela poderia estar num lugar melhor - mas eu não gosto de sonetos - ela repetiu.
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