sempre pensei no gesto do amor como quem segura um punhado de areia na praia. segurar com força não garante que alguns grãos escorram pelos dedos, se correr demais pode, igualmente, causar o desperdício. de qualquer modo, é quase impossível manter o número exato de grãos depois da primeira mãozada. mesmo com o ímpeto de encher a mão de amor, há um limite estabelecido pela realidade. mesmo que se queira, não se pode amar em demasia. pode-se até pegar com as duas mãos em concha, mas isso não as protege do vento. a fina areia se esvai, mesmo com toda a atenção, mesmo com todo o esforço, pouco a pouco, toda a areia se esvai. Há quem faça algumas sugestões: armazenar num pote hermético, tão fechado como se fosse um cofre, para protegê-la de qualquer perigo; mas como disse cícero "em cofre não se guarda coisa alguma/em cofre perde-se a coisa de vista"; não se guarda, perde. E é terrível carregar a culpa da perda. Tenho pensado muito em culpa; em especial, na ausência de culpa de prometeu; aquele que roubou o fogo do cofre dos deuses para entregar à humanidade; a tragédia de prometeu não começa com um crime, mas com a decisão de Zeus de que a humanidade não era digna; ao desobedecer essa autoridade, ele entrega o fogo aos homens e permitiu a sua emancipação; por isso - dizem - que prometeu foi o deus que mais acreditou na humanidade; ele não comete apenas um crime; ele transgride a própria definição de destino imposta pelos deuses; sua punição: ser acorrentado e ter o fígado devorado eternamente, "excluído para sempre de um perdão que ele se recusa a solicitar.” Aqui é que entra a culpa, ou melhor, a sua ausência; pois a ironia nisso tudo é que prometeu, "o que antevê", era capaz de ver o futuro; e ao entregar o fogo aos homens ele sabia das consequências (‘nenhuma desgraça que eu não tenha previsto recairá sobre mim’); esse é "o estoicismo de prometeu"; ele escolheu a revolta; a rebelião e decidiu encarar os seus resultados sem culpa, sem remorsos, por ódio aos deuses e amor aos mortais, por isso, ele não é vítima, tampouco culpado da sua própria tragédia; ele não pergunta porquê o abandonaram; ninguém lavou as suas mãos para exigir inocência.
é preciso imaginar prometeu feliz
- é preciso carregar consigo um certo espectro de prometeu
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